Por Carlos Duarte:
Há sensivelmente três semanas o longevo Presidente José Eduardo dos Santos (JES), no poder há quase 33 anos, exonerou os conselhos de administração da Radiodifusão Nacional de Angola (RNA) e da Televisão Pública de Angola (TPA).
Nos decretos presidenciais, referentes às mudanças nos órgãos de comunicação social do Estado, JES argumentou que as medidas se destinavam a garantir maior “pluralidade” de informação, com a aproximação do pleito eleitoral agendado para 31 de Agosto próximo.
O chefe de Estado, que nunca foi eleito para o cargo, concorre “agarrado às saias” do MPLA tendo, para o efeito, alterado a constituição em 2010. Esta eliminou as eleições presidenciais por voto popular directo e introduziu um modelo anti-democrático de cabeça de lista, a que os constitucionalistas do seu partido chamam de “modelo atípico”.
Em termos práticos, a “pluralidade” anunciada por JES não passa de retórica política, a julgar pelo desempenho da TPA. No passado Domingo, o noticiário nocturno do Canal 2, cuja gestão foi alienada pelos seus filhos Welwitchea José Dos Santos “Tchizé” e Paulino José dos Santos “Coreón Du”, foi uma sessão de apologia às supostas realizações governamentais.
Sem o milhão de casas prometido nas eleições de 2008, JES “repescou” Manuel Rabelais para fazer o “trabalho sujo” na media pública em razão da suposta “moleza” da anterior ministra da comunicação social, Carolina Cerqueira. De forma criativa, a equipa de Manuel Rabelais investe noutras áreas de promoção mediática, como as estradas e os caminhos de ferro. Daí o carnaval feito nos órgãos públicos de comunicação social, durante o último fim-de-semana, para celebrar a chegada do comboio do Caminho de Ferro de Luanda a Malanje, como mais uma grande realização do governo.
No entanto, a propaganda oficial arroga-se o direito de julgar toda a sociedade angolana como sendo de memória curta. A 24 de Agosto de 2010, no âmbito das celebrações de mais um aniversário natalício de JES, uma grande comitiva governamental inaugurou a circulação de comboio entre as províncias de Luanda e Malanje. No entanto, a caravana, que partiu, às 6h00, chegou ao destino apenas às 21h30.
Na altura, a imprensa estatal censurou o facto do comboio não ter passado do município do Lucapa, na província intermédia do Kwanza-Norte, por avaria. A delegação, dirigida pelo ministro dos Transportes, Augusto Tomás, teve de requisitar carros de Luanda para que chegassem ao destino.
Passados dois anos, a TPA concedeu mais de 10 minutos a um projecto que já foi inaugurado, como se de algo novo se tratasse. Vezes há em que a TPA e RNA concedem o mesmo tempo de antena à inauguração de um troço de estrada asfaltada, quando esta se apresenta já esburacada, como aconteceu com a via Kwanza-Norte – Huambo.
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